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Resenha: O Xangô de Baker Street, de Jô Soares

 Qual a relação entre um Stradivarius roubado, D. Pedro II, Sherlock Holmes, vatapá, feijoada e cannabis?! Aparentemente, esses elementos não possuem ligação nenhuma, entretanto, Jô Soares nos apresenta uma interação entre eles, de modo irreverente, num delicioso suspense policial. 

Após o roubo de um valiosíssimo violino Stradivarius, por indicação de sua amiga, Sarah Bernhardt, D. Pedro II convida o famoso detetive inglês, Sherlock Holmes, para solucionar o desaparecimento do instrumento. Concomitantemente ao furto, uma sequência de assassinatos escabrosos começam a ocorrer, exigindo de Holmes, auxiliar ao detetive Mello Pimenta nas investigações.

O Xangô de Baker Street é uma leitura que nos vicia, por nos deixar envolvidos em sua atmosfera, excepcionalmente, hilariante. É impossível ler um capítulo e não querer se embebedar, em mais algumas doses de risos. Você chega ao fundo da garrafa, ou no caso, do livro, sem perceber as horas em que passou envolto naquele ambiente.

“Anna Candelária suspirou, deitou-se e puxou as cobertas: “Não adianta chorar sobre o leito derramado”, pensou e, na mesma hora lembrou-se da garrafa de leite que tinha lançado ao rosto do assassino.”

É muito interessante notar, que o autor traz a debate muitas questões históricas, relacionadas ao período em que se passa a narrativa. Ambientada na cidade do Rio de Janeiro, em 1886, a obra nos introduz a esse momento histórico conflitante, marcado principalmente, pelos movimentos abolicionistas e republicanos.

Aliado a ironia, o autor faz críticas severas a sociedade do Brasil Império, principalmente, ao modo de colonização do país. Em meio aos diálogos dos personagens, Jô Soares analisa a aristocracia da época, que se construía aos moldes europeus. O grande conflito, incitado pelo escritor, é o fato de o Brasil, um país tão grande e diverso, com tamanhas belezas naturais, ter-se desenvolvido à sombra da Europa, sempre buscando imita-la.

                “– Não fosse o clima, eu julgaria estar ainda na Europa – disse Holmes, tomando de um trago sua água de coco.”

Outra questão bastante relevante, levantada pelo autor e que torna a obra original de 1995, muito atual, é o papel da mulher perante a sociedade. Em meio a uma sociedade machista, opressora, vemos a mulher nos personagens de grandes nomes, como Sarah Bernhardt, Chiquinha Gonzaga, como uma figura forte, à frente da sua época, que luta por igualdade.

Algo fascinante, na escrita do autor, é a sua destreza de elencar a esse momento tão importante, personagens reais e fictícios, enriquecido de um humor e sarcasmo único. Tal peculiaridade, em sua escrita, é a marca registrada da personalidade de Jô Soares.

Se não bastasse tamanha exuberância de sua obra, Jô Soares nos joga na cara, não somente, o seu riquíssimo conhecimento histórico, como também cultural. A todo instante, o autor nos esbofeteia com consagrados nomes da música, do teatro, da dança, de todas as artes. E é claro, não deixa de mencionar fascinantes escritores, desde Olavo Bilac, passando por Machado de Assis, a chegar na escrita de Edgar Allan Poe.

A leitura de O Xangô de Baker Street foi algo surpreendente e envolvente. Eu não tinha conhecimento de que o Jô Soares escrevia. Descobri esse dom do autor e me encantei por sua escrita, após ser presenteada com o livro, por uma pessoa muito especial. Preciso deixar o meu MUITO OBRIGADA, a essa alma iluminada! (hahahaha)

Bom, O Xangô de Baker Street, como já mencionado, é de autoria do humorista Jô Soares. Foi escrito originalmente em 1995 e relançado em 2011. Para quem gosta do gênero de suspense policial é uma leitura que vale muito a pena. Mas, para quem gosta de dar boas risadas é mais do que indicado. O livro também possui uma adaptação cinematográfica, lançada em 2001, com o título original da obra. E para quem tiver interesse em ler outros livros do autor, ele também escreveu obras como O Homem que matou Getúlio Vargas, As Enganadas, Assassinato na Academia Brasileira de Letras, além da sua autobiografia recém lançada, O livro de Jô. Fica a dica!

Título: O Xangô de Baker Street

Autor: Jô Soares

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 352

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Uma futura bióloga, perdida em livros e apaixonada por escrever.

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